Adriana e Aline

Quem vier, de onde vier, venha em paz!

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

ANIMANDO A EDUCAÇÃO

Sergio Henrique Martins
(Depoimento de Sergio Abreu)
A produção de vídeos de animação é o trabalho mais original do Centro Educacional Espaço Integrado (CEI), escola da rede particular carioca. Metade de seus 700 alunos, do CA à 8ª série, tem papel fundamental nessa atividade: eles criam histórias, fazem desenhos e bonecos, dublam e participam do processo de animação. Como resultado, ficam intensamente motivados a aprender e inventar - é o que garante Sergio Abreu, coordenador de multimídia da CEI.
Ele é o responsável pela técnica e a infraestrutura que possibilitam a produção dos vídeos e também de homepages, jogos de computador, e outras invenções da Espaço Integrado. Em depoimento, conta um pouco de sua experiência, diz como a CEI evoluiu no uso pedagógico da tecnologia e dá dicas para uma escola com poucos recursos combinar comunicação com informática e fazer uma educação estimulante. Acompanhe.
Uma amostra do trabalho de animação da CEI está disponível para download. O arquivo tem 1.7 Mb e pode ser aberto pelo programa Real Player.

Aprendendo na prática

Nosso envolvimento com informática começou no meio dos anos 90. Desde o início, optamos por uma linha de trabalho própria. Por isso não contratamos uma empresa especializada em informatizar escolas. A gente queria aprender a lidar com o computador na educação, absorver a cultura da informática na escola, e achava que, se deixasse uma empresa cuidar disso, não ia ter esse aprendizado. Foi uma opção pelo caminho mais difícil, e erramos muito — afinal, ninguém na escola tinha formação em informática, eu mesmo me formei em arquitetura e tinha experiência profissional em música. Mas garantir essa independência nos pareceu o melhor a fazer a longo prazo, e hoje posso dizer que valeu a pena.
De início criamos uma disciplina específica sobre informática, com aula uma vez por semana. Com o tempo, vimos que a aula estava muito tecnicista: os alunos aprendiam um determinado programa, um certo procedimento para usar o computador... Então a gente procurou associar o ensino de informática com outros trabalhos desenvolvidos pela escola, e criou a disciplina Tecnologias da Comunicação e Informação. Nesta disciplina, os alunos podem ter uma visão mais crítica dos meios de comunicação, através de discussão e reflexão e, também, da prática.
O aspecto prático é importante. O aluno pode pensar criticamente a partir de um certo domínio da técnica. Ao fazer um jornal, um vídeo, ele passa a ter ideia de como a comunicação se faz, como pode ser manipulada. A informática, no caso, entra nesse processo como uma ferramenta, um meio para a criação e a expressão.

Imagem, movimento, sedução

No começo de nosso trabalho, os computadores serviam para criação de homepages e, no máximo, para experiências com arquivos de áudio. Então fizemos projetos de um jornal eletrônico e de uma rádio. Com o avanço da tecnologia a gente viu que era possível ousar mais. Começamos, então, projetos envolvendo vídeo. A gente não imaginou o sucesso que isso ia fazer.
Tudo o que a gente conquistou começou com uma atividade simples, envolvendo só um grupo de alunos. Passamos os filminhos feitos em computador para fita de vídeo e exibimos num telão, na escola, fazendo um tipo de festival. Isso causou uma comoção geral; fascinou os pais, a coordenação... A direção da escola decidiu apoiar essa linha de trabalho, e aí fomos comprando equipamentos, montando a estrutura para isso. Transformar a atividade isolada num projeto para toda a escola foi inevitável: os alunos das outras turmas cobraram isso, eles queriam também lidar com animação.
A verdade é que a imagem em movimento seduz, envolve mesmo. Para fazer um desenho animado são necessários pelo menos 12 desenhos por segundo. Nossos filmes têm dois minutos e meio, três minutos; imagine, então, o esforço. Mas nem parece que os alunos percebem isso, pois fazem tudo numa boa, tal a paixão que eles têm por esse trabalho. Para mim, é por causa desse fascínio do audiovisual.

Animando com poucos recursos


Alunos do CEI se inspiram no mangue
 
Um bom exemplo do que a escola faz com a disciplina Tecnologias da Comunicação e Informação são os trabalhos sobre o mangue. Levamos os alunos da quarta série para conhecer o manguezal em Guaratiba. Nesta parte eles fazem uma prática em Ciências. Depois, passam o que viram, acharam e sentiram para a criação do vídeo. Desta vez, contamos com a participação do professor de Música. Ele criou uma música com as crianças, que foi a trilha sonora do vídeo.
No CEI temos um laboratório com 30 computadores e um estúdio, mas uma escola com poucos recursos pode muito bem criar seus vídeos de animação. Basta ter um computador, que pode ser de um modelo antigo, e um scanner. É importante ter uma mesa de luz, que é fácil de se fazer: trata-se de uma tela de vidro com uma lâmpada embaixo (*). Os desenhos são feitos na mesa, depois são escaneados. Para combiná-los numa cena de animação é preciso um programa específico. Mas a escola pode pegar na Internet uns programas gratuitos, como o Flash 3.0. Claro que se a escola não tem quem saiba usar o programa tudo fica mais difícil. Mas vale a pena experimentar o software, arriscar. A gente trabalhou muito assim, deu muita cabeçada mas acabou aprendendo.
O ideal é que o computador usado na criação do vídeo esteja ligado a um aparelho de videocassete; assim dá para se fazer uma cópia em fita de vídeo da animação, o que facilita muito na hora de se exibir o trabalho. Para isso, o micro tem que ter placa de vídeo. Caso se queira fazer animação com bonecos, com objetos, aí é preciso providenciar uma câmera. Mas não precisa ser um equipamento caro, pode ser uma câmera caseira. Uma boa placa de vídeo sai por R$ 300,00. Não é barato, mas nada fora do alcance de uma escola, mesmo pobre.
O vídeo é a vedete de nosso trabalho, mas desenvolvemos projetos com outras mídias e que são muito interessantes. Por exemplo, uma de nossas turmas criou um programa de perguntas e respostas sobre História do Brasil. No CEI estamos sempre interessados em experimentar com as linguagens e as tecnologias. Estamos começando a estudar a possibilidade de lidarmos com robótica. Para isso, tenho ido a São Paulo, conhecer propostas de grupos e empresas. Também estou atento ao que grupos, como o do Colégio Santo Inácio, estão bolando nessa área. É importante, e muito legal, acompanhar essas inovações. Sempre prestando atenção no que elas podem somar na educação.
* A mesa de luz serve para superposição de uma folha sobre outra, desenhada. A luz projeta o contorno do desenho na folha em branco e, assim, o animador tem ideia da posição das figuras da cena anterior quando está compondo a cena seguinte.
10/6/2002